Uma Sombra sobre o Rio Douro
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Sinopse
Romance breve noir passado entre Génova e a Grande Porto, ao longo do rio Douro.
Amostra
por Paolo Picariello Porto, agosto–dezembro de 1992 NOTA DO AUTOR Este romance decorre no Grande Porto, em 1992, num bairro de pescadores, prostitutas, ladrões e gente de bem chamado Afurada. Os acontecimentos narrados, as personagens e as organizações criminosas são uma invenção literária. Qualquer referência a pessoas reais é puramente casual. Ten existiu de verdade.
PRÓLOGO GÉNOVA. UM DOMINGO DE NOVEMBRO DE 1988. O asfalto estava quente contra a face. Foi este o primeiro pensamento — não a dor, não o som, não a compreensão do que acontecera. Apenas o calor do asfalto contra a face, em novembro, como se a praça tivesse guardado o sol de outubro dentro da pedra e não quisesse entregá-lo. Depois, o céu. Vista deitado de costas, a Piazza De Ferrari é outra praça — a fonte ao centro como um círculo de metal que nunca para, os edifícios a erguerem-se dos quatro lados como as paredes de um poço demasiado largo, um céu cinzento de novembro que girava devagar para a direita; ou talvez fosse ele a girar, difícil perceber qual dos dois se movia. O som chegou depois. Primeiro o calor e o céu, depois o som: um assobio contínuo, agudíssimo, como qualquer coisa dentro do ouvido a tentar encobrir tudo o resto. Depois, as vozes. Alguém chamava por ele debaixo de água. Depois, a dor. Tentou levantar-se. As pernas não responderam como deviam. Não era paralisia — sentia, e isso já era alguma coisa. O sinal partia, mas alguma coisa o interrompia pelo caminho. «Ricci. Ricci, fica quieto. Não te mexas.»
A voz de Marchetti. O seu subchefe. Uma voz que conhecia havia anos — quantos? Sete, oito? — e que agora parecia vir de muito longe, embora Marchetti estivesse a cinquenta centímetros dele, ajoelhado no asfalto, com as mãos a fazerem qualquer coisa atrás das suas costas. «Dux.» Disse o nome sem pensar. Foi a primeira palavra inteira; não o nome de Marchetti, não um pedido de ajuda. O nome do cão. «O Dux está bem?» Marchetti não respondeu logo. Aquela pausa de dois segundos continha tudo. «Fica quieto, Paolo. Fica quieto.» Não disse mais nada. Não era preciso. Dux não estava bem. Fechou os olhos. O asfalto continuava quente contra a face. A fonte fazia o seu ruído circular e contínuo, que nunca parava, nem sequer agora, nem sequer com a praça cheia de sirenes, de vozes e de tudo o que acontece quando alguma coisa grave corre mal num lugar público. Pensou no que acabara de acontecer. Não na dor, não nas pernas — em como acontecera. Operação planeada. Percurso alterado no último momento — uma decisão tomada naquela manhã, comunicada no máximo a três pessoas. Um intervalo de poucos minutos entre a alteração e a execução. E, no entanto, alguém sabia. Alguém soubera o percurso exato, o momento exato. Alguém de dentro. Ainda não era um nome. Era uma forma — a silhueta de alguém que ele conhecia o suficiente, que estava suficientemente perto, que encontrara razões suficientes para vender o que sabia. Rex já morrera dois anos antes, na outra operação comprometida que ele classificara como azar. A coleira ficara numa gaveta, porque certos objetos se tornam difíceis de deitar fora depois de terem tocado em alguma coisa que amámos. Agora, com o céu de Génova por cima dele e as sirenes a aproximarem-se, percebia que talvez não tivesse sido azar. Agora começava a perceber que as duas coisas podiam estar ligadas. O nome ainda não existia. Apenas a forma de alguém — próximo, de confiança, vendido — que se movia nas margens do que ele conseguia pensar. A ambulância chegou. Mãos a virá-lo, uma maca, o céu a voltar à vertical em vez de horizontal. Alguém falava sem parar. Paolo respondia por monossílabos, com a atenção noutro lugar. Num lugar onde ainda existia a forma de um cão que já não existia. E um homem que não estava onde devia estar. ✦✦✦
PRIMEIRA PARTE Grande Porto – agosto / setembro de 1992 I AFURADA – 14 DE AGOSTO DE 1992 Miguel entrou às dez e vinte. Paolo reconheceu-o pela postura antes mesmo de lhe ver o rosto: os ombros rígidos, o passo de quem continua a andar apenas porque parar seria pior. Levantou-se do balcão. «Miguel.» O outro parou a meio do bar. Apertava entre as mãos um frasco de conserva. «Quarto dia», disse. «A polícia diz que, por enquanto, não tem mais nada.» Paolo conhecia Sofia desde o tempo em que ela corria no cais com os atacadores desapertados. Conhecia também o rosto de um pai que já não conseguia chamar espera ao que estava a fazer. Apontou para o frasco. «É a fronha?» Miguel assentiu. «A Sonia tirou-a da almofada, como me disseste. Virou um saco limpo do avesso sobre a mão, sem tocar no tecido, e depois fechou-a aqui dentro.» Paolo verificou a tampa. O vidro preservava um odor mais limpo do que a camisola que Miguel levara à polícia, entretanto passada por demasiadas mãos. Não tornava o cão infalível; apenas reduzia uma das muitas razões pelas quais podia enganar-se. «Quem a viu por último?»
«A Fernanda. Na Fonte dos Leões, na noite da festa. Diz que eram zero e quarenta. A Sofia ficou ali à espera de alguém.» «A polícia sabe?» «Desde ontem.» Paolo pegou no telefone e ligou a Fernando Vieira. Falou-lhe do local, da hora e do frasco. Não pediu uma autorização que Fernando não poderia dar-lhe; pediu que um agente mantivesse livre o ponto de partida e registasse cada passagem. Quando desligou, Ten já se levantara da cama. Aproximou-se da mesa, farejou o ar e olhou para Paolo. «Aqui não», disse-lhe Paolo. «Começamos no último lugar onde sabemos que ela esteve.» Pegou no arnês, na linha longa e numa garrafa de água. Maria saiu de trás do balcão e compôs-lhe o colarinho com um gesto rápido. «Não prometas ao Miguel o que não sabes.» «Não prometo.» Miguel seguiu-os até à porta. «Vais encontrá-la?» Paolo olhou para o frasco, depois para o cão. Quatro dias de calor, vento, trânsito e milhares de passagens separavam Sofia daquela praça. «Procuramos uma direção», disse. «Se o Ten não a encontrar, há de dizer-nos. Isso também serve.» Saíram para o branco de agosto. O Douro brilhava ao fundo da rua, as redes estavam enroladas nos cais e uma gaivota gritava por cima dos telhados. Ten subiu para o carro sem precisar de ser chamado.
II O RASTO Chegaram à Fonte dos Leões pouco depois do meio-dia. Fernando mantivera os curiosos afastados com duas barreiras e um agente à paisana. Fernanda indicou o ponto exato: a borda da fonte voltada para a Rua das Carmelitas. Fora ali que deixara Sofia quatro noites antes, sentada com a mala sobre os joelhos. «Estava à espera do François?», perguntou Paolo. «Não disse. Disse apenas que tinha um encontro.» Paolo não a interrogou mais. Olhou para a calçada, as sombras curtas, o fluxo contínuo de pessoas. Era um ponto péssimo: aberto, atravessado, lavado todas as manhãs. Mas era um ponto conhecido, não uma hipótese. Colocou em Ten o arnês de busca e prendeu-lhe uma linha de oito metros. Abriu o frasco sem retirar a fronha e apresentou-o ao cão. Ten inspirou duas vezes, desviou o focinho e depois voltou ao odor. Paolo fechou de imediato o recipiente. «Procura.» Não indicou nenhuma direção. Deu um passo atrás e deixou Ten construir o seu próprio quadro. O cão descreveu um semicírculo em torno da fonte. Na primeira saída, entrou na Rua do Carmo durante alguns metros, abrandou e voltou para trás. Na segunda, verificou a orla de um canteiro e regressou com a linha frouxa. À terceira, o corpo mudou: cabeça mais baixa, ombros à frente, tensão contínua na linha. Paolo seguiu-o sem encurtar a distância. Aquilo não provava que Sofia tivesse passado por ali; era um comportamento coerente com o rasto procurado. Num auto, a diferença seria enorme. Também na sua cabeça tinha de continuar a sê-lo. Ten desceu em direção à Rua de Ceuta. Trabalhava por vezes junto à borda do passeio e outras dois ou três metros fora do eixo, onde as correntes entre os edifícios tinham deslocado o odor. Em cada cruzamento, alargava, experimentava uma saída, descartava-a e retomava. Paolo lia a tensão da linha, não o focinho. O focinho podia estar alto ou baixo; a decisão estava no corpo inteiro. Ao fim de vinte minutos, pararam à sombra. Paolo deulhe pouca água e deixou a respiração voltar ao normal. O calor contava mais do que o orgulho do condutor. Retomaram o trabalho. O rasto levou-os à rampa de uma garagem privada. O vigilante teria querido falar, mas Fernando fê-lo esperar. Ten desceu ao piso inferior, atravessou duas filas de automóveis e abrandou diante de um lugar junto a um pilar. Fez dois pequenos círculos, verificou a passagem pedonal, voltou ao lugar. Depois, a tensão desapareceu. Paolo deu-lhe toda a extensão da linha. Ten experimentou a saída dos carros, voltou para dentro, procurou ao longo da parede e regressou de novo ao pilar. Nenhum reinício nítido. «Lá para fora», disse Paolo. Deixou-o descansar cinco minutos, depois repetiu a verificação a partir do corredor oposto. O resultado foi o mesmo: chegada ao lugar, busca breve e dispersa, nenhum rasto pedonal à saída. Paolo tirou o boné e olhou para Fernando. «Aqui perde o percurso. Pode ter entrado num veículo. Também pode haver contaminação a mais para ele continuar. Não te sei dizer qual das duas coisas aconteceu.» O vigilante recordava-se de uma carrinha verde-escura que entrara depois da meia-noite e saíra menos de dez minutos mais tarde. Lembrava-se de dois homens e de uma rapariga no banco da frente; não da matrícula completa, apenas das letras finais. Fernando mandou isolar o lugar. Havia uma mancha de óleo recente e uma marca de pneu, coisas que o laboratório podia comparar e o cão não. Ten deitou-se no cimento fresco, com a língua de fora. «Muito bem», disse Paolo. Não porque tivesse encontrado Sofia. Delimitara um troço do último percurso dela e soubera parar onde a informação terminava. Era a parte menos espetacular do trabalho e aquela que Paolo se sentia mais seguro em apresentar a Fernando. ✦✦✦ No recinto de André, três anos antes, havia seis cachorros. Um mordia os atacadores, outro ladrava a tudo, outro tentava trepar a rede. Ten observava. Sentara-se a dois metros de Paolo e estudara-o com aquela seriedade desproporcionada que conservaria em adulto. Depois levantara-se, atravessara a distância e colocara-se ao seu lado. «Como se chama?», perguntara Paolo. «Ainda não tem nome.»
«Ten.» Não houvera um motivo. Apenas o som certo. Agora, na garagem, Ten levantou a cabeça quando Paolo pegou na linha. O trabalho terminara. Subiram em direção à luz.
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