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Narrativa Noir

Amor Enjaulado

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Sinopse

Uma fábula negra sobre a liberdade, a culpa e o amor, contada através de dois cães que escolhem deixar de pertencer a alguém.

Amostra

ROMANCE BREVE Paolo Picariello À Nikita, que me ensinou que o carácter não se cria: reconhece-se.

PARTE I AS GRADES 1. A mordida e o olhar Génova fedia a chuva e a urina naquela manhã. O vento empurrava a água para debaixo das coberturas do campo de treino canino Monteverde e fazia bater contra a rede uma faixa publicitária: CAMPEÃO JÁ SE NASCE. Pepe caminhava pelo cimento, evitando as poças. Vanessa vestira-lhe um casaquinho cor de areia, leve mas impermeável, e, sempre que ele abrandava, a trela ficava tensa. — Cabeça erguida, meu amor. Hoje está cá o pessoal da televisão. Pepe conhecia aquela voz. Amor queria dizer: não te sujes, não ladres, não olhes para onde te apetece. Atrás da rede do campo grande, um mastim napolitano estava sentado ao lado de um homem com um charuto. Tinha o pelo cinzento, os beiços pesados e uma cicatriz branca no flanco direito. Não puxava. Não arquejava. Olhava. Pepe abrandou. — Anda. — Vanessa deu um puxão curto na trela. O mastim acompanhou o gesto com os olhos. Depois olhou para Pepe, não para o casaquinho, não para o laço preso à coleira. Olhou para o tremor que lhe percorria as patas. Aquele olhar foi a primeira mordida. Pepe parou diante da rede. De perto, o mastim cheirava a terra molhada, a ferro e a qualquer coisa doce, talvez ao feno da casota. — Como te chamas? — perguntou.

Os humanos ouviram um ganido e uma respiração mais funda. — Número Sete. — Isso não é um nome. O mastim mexeu ligeiramente uma orelha. — Antes chamavam-me Gennaro. Pepe repetiu-o em voz baixa, para lhe sentir o peso. — Eu sou o Pepe. — Eu sei. O teu nome está escrito por todo o lado. Nas barreiras havia três fotografias de Pepe: em cima de uma passadeira vermelha, ao colo de Vanessa, diante da fonte de uma cidade de que não se lembrava. Nas fotografias sorria. — Não acredites nas fotografias — disse. Gennaro baixou os olhos para a trela tensa. — Não acredito. O homem do charuto reparou que o mastim deslocara o peso para a frente. Deu-lhe uma pancada no flanco com a biqueira do sapato, mesmo por baixo da cicatriz. Gennaro não soltou um som. Pepe soltou. Um latido seco, desproporcionado em relação ao corpo. Vanessa ergueu-o pelo peitoral. — Que vergonha me fazes passar? Enquanto era levado dali, Pepe continuou a olhar para Gennaro por cima do ombro dela. O mastim permanecera imóvel. Só a cauda, estendida na lama, se mexeu uma vez. Não era uma despedida. Era a promessa de que voltariam a reconhecer-se.

2. Número Sete O centro de criação de Alfredo Esposito ocupava um armazém nos arredores de Bolzaneto, entre a ribeira e a autoestrada. À frente havia uma tabuleta dourada, dois ciprestes em vasos e um portão elétrico. Atrás, vinte e seis boxes de betão. Gennaro vivia no número sete. Alfredo guardava no escritório o pedigree emoldurado e uma fotografia do pai de Gennaro por baixo da frase O SANGUE NÃO MENTE. Falava de mandíbulas, cabeças, angulações. Quando chegavam clientes, abria o boxe e fazia Gennaro subir para um estrado de borracha. — Quarenta e nove quilos de raça pura. Eram sessenta e dois, mas quarenta e nove soava melhor nas brochuras. Duas ou três vezes por mês entrava uma fêmea. Alfredo fechava a porta de correr, dava ordens e anotava os tempos. A Gennaro ficavam agarrados os cheiros das outras e a sensação de ter emprestado o corpo a alguém que não lhe devolveria nada. Naquela noite recusou a fêmea fulva trazida de Turim. Ela tinha as patas rígidas e respirava demasiado depressa. Gennaro cheirou-lhe o focinho e depois sentou-se. — Vá. — Alfredo bateu palmas. — Trabalha. A cadela tentou aproximar-se. Gennaro afastou-se. A primeira pancada atingiu-o no dorso. A segunda, na cicatriz. Lorenza, a mulher de Alfredo, observava através do vidro do escritório, com um caderno apertado contra o peito.

— Chega — disse, sem abrir a porta. Alfredo não a ouviu ou decidiu não a ouvir. Quando o armazém voltou a ficar em silêncio, Gennaro escavou o resto de terra que havia sob a rede do boxe. Não procurava uma saída. Com o focinho desenhou duas orelhas direitas e um corpo minúsculo. A chuva trazida pelo vento apagou o desenho antes do amanhecer. Do outro lado da cidade, Pepe dormia numa cama de pele sintética, sob uma prateleira cheia de taças. Vanessa deixara a luz acesa para poder filmá-lo, caso ele fizesse algum movimento engraçado durante o sono. Pepe não se mexeu. Contava os ruídos do prédio e pensava num nome que não aparecia em cartaz nenhum. Gennaro.

3. Chuva no campo Voltaram a ver-se três semanas depois. A trovoada chegou durante os ensaios de grupo. Um relâmpago apagou os projetores do campo, e os humanos correram para a cobertura, arrastando cadeiras, sacos e cães. Para evitar uma luta, o guarda acomodou os animais nas caixas de transporte disponíveis. Pepe ficou numa jaula de alumínio demasiado grande para ele. Gennaro, na do lado, demasiado pequena. A chuva no telhado abafava as vozes. Vanessa discutia ao telemóvel perto da entrada; Alfredo fumava debaixo do letreiro PROIBIDO FUMAR. Pepe aproximou-se da divisória perfurada que separava as jaulas. Através dos buracos via um dos olhos de Gennaro. — Ele magoou-te? — Não. — Mentiste. — Sim. Pepe cheirou o metal. — Porque não o mordes? Gennaro ficou em silêncio tempo suficiente para a chuva parecer mais forte. — Porque depois da mordida há sempre uma jaula mais pequena. Pepe pensou nos quartos de hotel, nas caixas de transporte debaixo dos assentos dos aviões, nos camarins sem janelas. — Mesmo sem mordida.

Gennaro deslocou o focinho até tocar no metal. Pepe fez o mesmo. A divisória estava fria entre os narizes dos dois. — Que idade tens? — perguntou Gennaro. — Oito anos. Vanessa diz seis quando lhe perguntam na televisão. — Eu tenho quatro. — E ainda te chamam Número Sete. — Os números não envelhecem. Do fundo da cobertura veio uma tosse. Alfredo dizia a outro criador que mandaria Gennaro para Milão para uma recolha de sémen. Falava da viagem, do preço e da quantidade como se estivesse a encomendar gasóleo. Pepe ouviu. — Vais fazê-lo? — Vão pôr-me um açaime. Depois fazem o que quiserem. — Podes recusar-te. — Recusei-me ontem. Gennaro virou-se ligeiramente. Através dos furos, Pepe viu a cicatriz e, mais abaixo, duas nódoas negras. A raiva subiu-lhe da barriga à garganta. Não ladrou. Encostou uma pata ao metal. Gennaro cobriu-a do outro lado com a sua. O buraco entre ambos era do tamanho de uma unha, mas bastava para deixar passar o calor. Quando a luz voltou, os humanos abriram primeiro a jaula de Pepe. Vanessa pegou-lhe ao colo e passou-lhe um toalhete nas patas. — Parece que estiveste na guerra. Pepe olhou para o boxe do lado. Gennaro não retirara a pata.

— Ainda não — disse. Vanessa ouviu apenas um pequeno rosnado e apertou-o com mais força. ••• No domingo seguinte, o campo recebeu uma exposição regional. As barreiras dividiam o relvado em dois rings; dos altifalantes saíam nomes, números e resultados. Pepe passou a manhã em cima de uma mesa de preparação, enquanto três pessoas lhe arranjavam o pelo, que não precisava de ser arranjado. Vanessa borrifou-lhe o dorso com um produto que cheirava a pó de talco. — Hoje, nada de birras. Do outro lado do relvado, Alfredo fazia Gennaro andar para a frente e para trás diante de um juiz. Erguia-lhe a cabeça com a trela e empurrava-lhe as patas para a posição desejada. Sempre que o mastim tentava sentar-se, a corrente apertava-lhe a garganta. Pepe acompanhou tudo pelo espelho da mesa. Quando chamaram a sua categoria, atravessou o ring sem errar um passo. O juiz abriu-lhe a boca, examinou-lhe os dentes e passou-lhe uma mão ao longo do dorso. Pepe ficou imóvel. Aprendera que a imobilidade encurtava o contacto. Ganhou. Vanessa ergueu-o acima da cabeça enquanto o fotógrafo disparava. Nos braços dela, Pepe viu Gennaro atrás da cortina dos expositores. Alfredo prendera-o a um poste com três fêmeas e estava a beber no bar.

Assim que Vanessa o pousou, Pepe enfiou-se debaixo da mesa e correu para trás das cortinas. Tinha menos de um minuto até darem pela sua falta. Gennaro ouviu-o chegar. — Ganhaste. Pepe olhou para a roseta presa ao peitoral. — Não fiz nada que quisesse fazer. — Andaste bem. — Também ando bem quando vou beber. Uma das fêmeas presas ao lado de Gennaro observavaos. Era jovem, com as mamas ainda inchadas de leite. — Vocês são os dois da trovoada. Gennaro baixou o focinho. — Como estão as crias? — Vendidas. Dizem que estão todas bem. A cadela virou a cabeça para o bar, onde os criadores comparavam fotografias nos telemóveis. — Já não me lembro do cheiro delas. Pepe não encontrou nada para dizer. A roseta pesavalhe no peito. Gennaro aproximou o nariz do dele. — Quando é que te levam? — Ainda não sei. — Aprende o caminho. — Faço-o sempre. Vanessa chamou-o. Pepe mal teve tempo de lamber o lábio inferior de Gennaro, onde a pele formava uma prega húmida, antes de regressar ao ring. Nesse dia, nas fotografias oficiais, apareceu com o focinho perfeito e a roseta azul. Ninguém reparou num pelo cinzento que lhe ficara preso entre os dentes.

4. A sala dos troféus Vanessa vivia em Castelletto, num apartamento com duas varandas e sem uma única fotografia que não mostrasse o seu rosto. As taças de Pepe ocupavam a parede do corredor; os brinquedos estavam num cesto atrás da porta de serviço. Naquela noite, ela chegou tarde e sentou-se no chão ainda vestida. Tinha descalçado um sapato, mas o outro não. Pepe observava-a da cama. — Sabes qual é o problema? Se deixares de ganhar, eu também deixo de existir. Não estava bêbeda. Estava cansada, e, quando se cansava, falava com ele como se pudesse responder-lhe. Pepe aproximou-se. Vanessa pegou-lhe ao colo, tirou com dois dedos uma erva presa no pelo e massajou-lhe a base das orelhas. Sabia o ponto exato. Durante alguns minutos não houve telemóvel, luzes nem ordens. Pepe sentiu-lhe o coração bater por baixo da camisa. Depois o ecrã em cima da mesa iluminou-se. Vanessa pegou no telemóvel. — No sábado fazemos Righi. Pôr do sol, skyline e coleira nova. Se ficar bem, a marca renova. Pepe saiu-lhe do colo. O contrato estava em cima da mesa. Aprendera a reconhecer o próprio nome entre as linhas e o valor escrito no fim. Vanessa não o ensinara a ler; tinham sido anos de etiquetas, painéis e folhas deixadas abertas.

Ela apontou para uma página. — E depois Milão. Têm um programa de reprodução. Só dois meses. Pepe conhecia o significado das palavras programa e reprodução. Ouvira-as usar perto dos boxes. Vanessa reparou que ele tremia. Cobriu-o com uma manta de caxemira e aumentou o termóstato. — Tens frio, meu amor? Pepe ficou debaixo da manta até a respiração dela se tornar regular. Depois saiu, atravessou o corredor e sentou-se diante da parede das taças. O metal devolvia-lhe uma imagem partida: um olho, uma orelha, a coleira. Pela primeira vez não viu um campeão. Viu um animal que deixara os outros decidir tudo.

5. O cheiro do ferro Alfredo trazia as chaves do armazém presas à cintura. Quando caminhava, tilintavam contra a fivela como dentes. Gennaro aprendera a distinguir cada chave. A comprida abria o portão exterior; a achatada, o escritório; a pequena com o rebordo vermelho, a sala dos medicamentos. A chave do seu boxe era a segunda a contar da esquerda. Certa manhã, Lorenza entrou sozinha. Trazia uma bacia com água e compressas limpas. Alfredo fora ao banco. Abriu o boxe sem olhar Gennaro nos olhos. — Deixa-me ver. Ele ficou quieto. Lorenza tocou no pelo em redor da cicatriz. A pele abrira-se outra vez. Limpou o sangue com movimentos leves, mas as mãos tremiam-lhe. — Ele nem sempre foi assim — disse. Gennaro cheirou-lhe os dedos. Sabiam a sabão, fumo de tabaco e medo. Ela acabou o penso e deixou a porta aberta enquanto apanhava as compressas. Entre Gennaro e o pátio não havia nada. Para lá do pátio, o portão elétrico estava entreaberto para a carrinha da ração. Gennaro deu um passo.

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